Juventude e criminalidade
Desde o início de minha militância na imprensa, tenho-me insurgido contra esse piedoso lugar-comum que inocenta a pessoa do criminoso, atribuindo sua conduta agressiva à miséria e à desigualdade social. O criminoso seria sempre inocente, culpada é a sociedade que o gerou e o mantém sem recursos nem assistência. Essa equação, em seu simplismo bem-pensante, encobre uma chantagem político-ideológica destinada a colocar no banco dos réus o sistema capitalista, com todas as "perversões" a ele atribuídas, como se existisse algum sistema político e econômico livre de distorções e idilicamente puro e inocente.
Está certo repetir que o homem é por natureza social ou sociável. Mas é preciso acrescentar, com ênfase, que o homem é também e ao mesmo tempo anti-social, cheio de impulsos e tendências insociais, prontas a irromper sempre que se vislumbre a suspeita de impunidade. O potencial de criminalidade reside nas próprias entranhas de cada indivíduo. O ser humano é capaz do melhor e do pior. E a sociedade que o corrompe, como pregava o sublime Rousseau, serve também para integrá-lo e aperfeiçoá-lo.
Pois bem, esse ponto de vista, que era uma simples idéia, uma teoria especulativa, sem base em nenhuma pesquisa especializada, encontra sua comprovação experimental no recente estudo da antropóloga Alba Zaluar, baseado em 20 anos de pesquisa minuciosa, chegando à conclusão de que apenas a pobreza e a desigualdade não explicam a atração da juventude pela criminalidade. Sua proposta é "ultrapassar a argumentação simplista do determinismo econômico que faz com que se pense que toda a questão da violência e da criminalidade possa ser explicada apenas pela pobreza e pela desigualdade" (Folha de S.Paulo, 12/7). A pobreza só se detona em combustível da criminalidade quando inflamada pela faísca da glamurização da bandidagem, a imagem do "macho cruel" exaltado como herói do crime.
A antropóloga critica o sensacionalismo do filme Cidade de Deus, apresentando toda uma comunidade de favelados totalmente dominada pelo crime e pela violência. Nada mais falso: "Fizemos um levantamento na Cidade de Deus e concluímos que apenas 2% da população de lá está envolvida com o crime. Como explicar que a maioria das pessoas não se envolveu com o tráfico? Certamente tem algo a mais aí."
Esse algo a mais é definido pela autora nos seguintes termos: "Parece-me o fato de que alguns se deixam seduzir por uma imagem da masculinidade que está associada ao uso da arma de fogo e à disposição para matar, ter dinheiro no bolso e se exibir para algumas mulheres. A partir de entrevistas que minha equipe fez com jovens traficantes, definimos isso como um etos da hipermasculinidade. Esse é um fenômeno que está sendo muito estudado nos EUA e na Europa e diz respeito a homens que têm alguma dificuldade de construir uma imagem positiva de si mesmos. Precisam da admiração ou do respeito por meio do medo imposto nos outros. Por isso se exibem com armas e demonstram crueldade diante do inimigo."
A glamurização do crime seduz os jovens de todas as classes sociais, não só os adolescentes das favelas, como o filhinho de papai da classe média alta ingressando em quadrilhas para assaltar apartamentos de luxo. E no fundo, mais do que as carências sociais, econômicas e educacionais, é essa glamurização do crime e da violência, encarnada na figura dos mocinhos da bandidagem, o fator decisivo que empurra o jovem para o teatro da infração penal, paraíso do exibicionismo marginal em sua perversidade polimorfa.
Alba Zaluar chama a atenção para a responsabilidade da imprensa. As fotos de traficantes e matadores colocadas em destaque nas primeiras páginas dos jornais servem de incentivo aos jovens criminosos em busca da fama.
Conhecidos pela sua dureza, os traficantes sentem-se consagrados quando seus rostos aparecem circulando na mídia: "Infelizmente, os jornais continuam dando nomes, o que contribui para a permanência do círculo vicioso de atração dos jovens."
Soluções? A proposta da pesquisadora, posta em prática em escolas públicas do Rio, lembra a estratégia adotada em São Paulo por uma professora (por sinal, minha prima) em confronto com uma classe rebelde, de alunos anarquizados a ponto de nem se poder iniciar a aula. Astutamente, a então jovem educadora conquistou a simpatia do chefe da classe, encarregando-o de disciplinar a turma. Zaluar propõe algo parecido. Desenvolve o projeto que batizou de Mediadores da Paz, mostrando aos jovens "a importância de negociar os conflitos por meio das palavras e como isso podia trazer para eles respeito próprio e das outras pessoas. Nesse projeto, incentivávamos jovens a mediar conflitos entre colegas".
Se o Brasil contar com um sério candidato ao Prêmio Nobel da Paz, este será a antropóloga Alba Maria Zaluar, pela sua efetiva contribuição no tratamento do jovem delinqüente, tanto na dimensão acadêmica quanto no plano prático e executivo.
Gilberto de Mello Kujawski, escritor e jornalista, é autor, entre outros ensaios, de Império e Terror e Idéia do Brasil, a Arquitetura Imperfeita E-mail: gmkuj@terra.com.brO Estado de São Paulo - GILBERTO DE MELLO KUJAWSKI 7/22/2004
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